sábado, 8 de agosto de 2026

Eu acho que alguma coisa me viu pelo espelho do banheiro

 

Eu sei exatamente quando isso começou.

O problema é que, na época, não aconteceu nada que parecesse importante.

Foi numa sexta-feira à noite, há pouco mais de dois meses. Eu tinha chegado cansada do trabalho, pedi comida, tomei uma taça de vinho e fiquei enrolando para tomar banho enquanto assistia vídeos no celular.

Moro sozinha.

Meu apartamento não é grande. Tem um quarto, sala, cozinha e um banheiro minúsculo no corredor. O banheiro tem um espelho enorme em cima da pia, daqueles que ocupam quase toda a parede. Ele já estava aqui quando me mudei.

Naquela noite, levei o celular para o banheiro e coloquei uma playlist enquanto tomava banho.

Depois fiquei diante do espelho passando creme no cabelo.

Começou a tocar uma música que eu gostava muito.

Eu estava de bom humor, então comecei a cantar.

Não foi nenhum ritual.

Não acendi vela.

Não falei palavras estranhas.

Não estava tentando invocar coisa nenhuma.

Eu simplesmente cantei olhando para o meu reflexo.

Em algum momento comecei a dançar também. Uma coisa idiota, sozinha em casa. Eu estava enrolada na toalha, usando a escova de cabelo como microfone e rindo de mim mesma.

Lembro que cheguei bem perto do espelho durante o refrão.

E foi aí que tive aquela sensação.

Vocês sabem quando alguém entra num cômodo atrás de você e, mesmo sem ouvir nada, você percebe?

Foi exatamente isso.

Parei de cantar.

Olhei pelo espelho para a porta do banheiro.

Não havia ninguém.

Mesmo assim, tive certeza de que alguma coisa estava atrás de mim.

Virei.

Nada.

Meu apartamento estava silencioso.

Até brinquei comigo mesma.

"Parabéns. Vinte e oito anos e agora você tem medo do próprio banheiro."

Terminei o que estava fazendo e fui dormir.

Às 3h17, acordei com alguém sussurrando meu nome.

Não parecia vir do corredor.

Parecia vir do lado da cama.

Abri os olhos imediatamente.

O quarto estava escuro, exceto pela luz do poste atravessando a cortina.

Fiquei imóvel.

Meu coração estava acelerado, mas tentei racionalizar. Às vezes a gente acorda no meio de um sonho e carrega algum som para a realidade.

Fechei os olhos.

Então ouvi de novo.

Meu nome.

Dessa vez mais baixo.

Quase carinhoso.

Sentei na cama e acendi o abajur.

Nada.

Olhei debaixo da cama, conferi o apartamento inteiro e verifiquei a fechadura.

Tudo normal.

Só achei uma coisa estranha.

A porta do banheiro estava aberta.

Eu sempre deixo aquela porta fechada porque a luz do prédio entra pela janelinha e ilumina o corredor.

Fechei.

Voltei para a cama.

Na manhã seguinte, já parecia ridículo.

Até a segunda noite.

Acordei às 3h17 novamente.

Dessa vez não ouvi meu nome.

Ouvi uma respiração.

Lenta.

Profunda.

Vindo do corredor.

Não levantei.

Fiquei uns dez minutos olhando para a porta do quarto.

A respiração parou.

Depois ouvi um pequeno estalo.

Era a porta do banheiro abrindo.

Na manhã seguinte ela estava aberta outra vez.

Comecei a pensar que havia algum problema na fechadura.

Coloquei uma toalha dobrada embaixo da porta para impedir que ela se movesse.

Funcionou.

Por uma noite.

Na outra, acordei e encontrei a toalha no meio do corredor.

A porta estava aberta.

Foi aí que comecei a ficar assustada de verdade.

Mas as coisas pioraram durante o dia também.

Passei a perceber movimentos nos reflexos.

Nunca diretamente.

Era sempre naquele intervalo de meio segundo em que eu passava pelo banheiro.

Uma sombra alta.

Um movimento atrás de mim.

Uma impressão de que havia alguém parado perto do box.

Quando eu voltava para conferir, não tinha nada.

Também comecei a encontrar marcas no espelho.

Pareciam manchas de dedos.

Eu limpava.

Elas voltavam.

Uma noite, contei.

Cinco marcas.

Como se alguém tivesse apoiado uma mão do outro lado.

Foi nessa época que os sussurros começaram a acontecer enquanto eu estava acordada.

No início eu não entendia palavras.

Parecia alguém conversando muito baixo no apartamento vizinho.

Depois começaram as frases.

"Olha para mim."

Foi a primeira que entendi claramente.

Eu estava escovando os dentes.

Congelei.

O sussurro veio atrás de mim.

"Olha."

Eu já estava olhando para o espelho.

Talvez por isso tenha demorado alguns segundos para perceber uma coisa.

Meu reflexo estava normal.

Mas atrás dele havia algo escuro.

Muito alto.

Perto da porta.

Virei tão rápido que bati o quadril na pia.

Não havia ninguém.

Saí do banheiro, peguei minha bolsa e dormi na casa da minha irmã.

Não contei o motivo verdadeiro.

Disse que tinha aparecido uma barata enorme no apartamento.

No dia seguinte, voltei acompanhada dela.

Tudo parecia normal.

Minha irmã riu da quantidade de luzes que eu tinha deixado acesas.

Então ela entrou no banheiro.

Ficou parada.

Perguntei o que foi.

Ela respondeu:

"Seu espelho sempre foi assim?"

Meu estômago gelou.

Perguntei o que ela queria dizer.

Ela apontou para uma parte próxima da borda.

Havia uma mancha escura no vidro.

Parecia estar dentro do espelho.

Não sobre ele.

Minha irmã tentou limpar.

Não saiu.

Três dias depois, a mancha havia desaparecido.

Foi quando comecei a pesquisar.

Primeiro procurei coisas óbvias: alucinação ao acordar, paralisia do sono, problemas com reflexos, privação de sono.

Depois comecei a pesquisar relatos sobrenaturais.

E acabei entrando num buraco que eu gostaria de nunca ter encontrado.

Li fóruns, blogs, discussões antigas e relatos sobre djinns.

Em vários desses textos aparecia um termo: Jinn al-Ashiq.

Algumas pessoas traduziam como "djinn amante" ou "djinn apaixonado".

Os relatos descreviam uma entidade que desenvolveria uma espécie de obsessão por uma pessoa.

Não estou dizendo que essas coisas sejam verdade.

Estou dizendo apenas o que encontrei.

E uma postagem específica quase me fez vomitar.

Uma mulher perguntava se era perigoso cantar diante de espelhos.

Nos comentários, alguém dizia que espelhos poderiam funcionar como passagens ou pontos de contato e que cantar ou dançar diante deles, principalmente em lugares privados como banheiros, poderia atrair uma presença.

Li aquilo umas cinco vezes.

Depois lembrei daquela sexta-feira.

A música.

Eu cantando.

Dançando.

Olhando diretamente para mim mesma.

E aquela sensação repentina de alguém entrando no banheiro.

Fechei o notebook.

Naquela noite cobri o espelho com um lençol.

Foi a pior decisão que tomei.

Às 2h40 acordei com barulho no corredor.

Não era respiração.

Eram passos.

Dois passos.

Silêncio.

Dois passos.

Silêncio.

Como se alguém estivesse andando de um lado para o outro num espaço pequeno.

Peguei o celular.

Liguei para minha irmã.

Enquanto chamava, os passos pararam.

Então alguma coisa arranhou a porta do meu quarto.

Uma vez.

Devagar.

Do alto até embaixo.

Minha irmã atendeu.

Eu nem consegui explicar.

Só pedi para ela continuar falando comigo.

Enquanto ela falava, ouvi um som vindo do banheiro.

O tecido deslizando.

Na manhã seguinte, encontrei o lençol dobrado no chão.

Não caído.

Dobrado.

O espelho estava descoberto.

E havia uma frase desenhada no vapor do vidro.

NÃO ME ESCONDA.

Eu não tinha tomado banho.

O espelho estava seco.

Saí do apartamento naquele mesmo dia.

Fiquei duas semanas na casa da minha irmã.

Achei que tinha resolvido.

Não tinha.

Na quarta noite, acordei às 3h17.

Minha irmã estava dormindo no quarto ao lado.

Ouvi meu nome.

Bem perto do ouvido.

Depois uma voz masculina sussurrou:

"Você foi embora."

Não parecia zangada.

Parecia magoada.

Isso foi pior.

No dia seguinte, minha irmã perguntou por que eu estava andando pela casa de madrugada.

Eu disse que não estava.

Ela insistiu.

Disse que tinha me visto parada no corredor.

Perguntei que horas.

Ela não sabia exatamente.

Mas devia ser pouco depois das três.

Segundo ela, eu estava parada diante do espelho do corredor.

De costas.

Ela chamou meu nome.

A pessoa não respondeu.

Minha irmã voltou para o quarto porque achou que eu estava sonâmbula.

Só que eu estava trancada no quarto de hóspedes.

Eu comecei a chorar quando ela contou.

Contei tudo.

Ela não riu.

Nós cobrimos todos os espelhos da casa.

Durante três dias, nada aconteceu.

Na quarta noite, ouvi batidas vindas de dentro do guarda-roupa.

Três batidas.

Pausa.

Três batidas.

Depois o meu celular vibrou.

Era uma mensagem enviada pelo meu próprio número.

Só havia duas palavras:

ME MOSTRA.

Minha irmã viu.

Então pelo menos essa parte eu sei que não imaginei.

Troquei de celular.

Troquei o chip.

Voltei para meu apartamento porque não queria colocar minha irmã no meio disso.

Retirei o espelho do banheiro.

Paguei para um homem tirar aquela coisa inteira da parede.

Enquanto carregava o espelho para fora, ele perguntou se eu queria guardar.

Eu disse que podia jogar fora.

Ele ficou olhando para o vidro por alguns segundos.

Depois perguntou:

"Tem alguém aí dentro?"

Achei que estivesse brincando.

Perguntei o que ele queria dizer.

Ele apontou para o reflexo do corredor.

"Parecia que tinha um homem no seu quarto."

Corri até lá.

Vazio.

Quando voltei, o homem já estava levando o espelho embora.

Não contei nada.

Eu queria aquela coisa fora da minha casa.

Só que aparentemente nunca foi o espelho.

Ou talvez tenha sido no começo.

Agora qualquer superfície serve.

Janela à noite.

Tela desligada da televisão.

Porta do micro-ondas.

Tela preta do celular.

Às vezes vejo uma figura atrás de mim.

Alta demais.

Magra demais.

Nunca consigo enxergar o rosto.

Mas ela está chegando mais perto.

Semana passada consegui vê-la quase inteira no reflexo da televisão.

Estava atrás do sofá.

Eu estava sentada.

Ela parecia inclinada sobre mim.

E havia alguma coisa errada na posição da cabeça.

Como se estivesse tentando aproximar o rosto do meu cabelo.

Não virei.

Fechei os olhos.

Ouvi uma inspiração longa atrás de mim.

Como alguém sentindo um perfume.

Depois o sussurro:

"Minha."

Eu corri.

Tenho dormido com as luzes acesas desde então.

Mas a parte que realmente me assustou aconteceu ontem.

Eu estava conversando com minha irmã por chamada de vídeo.

Ela ficou em silêncio de repente.

Perguntei o que tinha acontecido.

Ela perguntou quem estava comigo.

Eu disse que ninguém.

Ela mandou eu sair do apartamento.

Perguntei por quê.

Minha irmã começou a chorar.

Disse que, por alguns segundos, apareceu um homem atrás de mim na câmera.

Não dava para ver o rosto.

Só os olhos.

Segundo ela, ele não estava olhando para a câmera.

Estava olhando para mim.

Saí de casa.

Estou num hotel agora.

Não há espelhos descobertos no quarto. Cobri o do banheiro com uma toalha assim que cheguei.

São 4h06 enquanto escrevo isso.

Há cerca de vinte minutos, ouvi alguém andando no corredor.

Os passos pararam diante da minha porta.

Não houve batida.

Olhei pelo olho mágico.

Não tinha ninguém.

Voltei para a cama.

Cinco minutos depois ouvi um sussurro vindo do banheiro.

Não consegui entender na primeira vez.

Na segunda, entendi.

"Por que você continua fugindo?"

Não fui até lá.

Não vou.

Estou sentada na cama com todas as luzes acesas e uma cadeira encostada na porta.

A toalha continua cobrindo o espelho.

Mas, enquanto escrevia os últimos parágrafos, percebi uma coisa.

Ela está se mexendo.

Não como se estivesse caindo.

Como se alguma coisa atrás dela estivesse passando os dedos pelo tecido.

Devagar.

De dentro para fora.

Continuo pesquisando tudo o que encontro sobre Jinn al-Ashiq, espelhos, formas de quebrar esse tipo de ligação e relatos de pessoas que dizem ter passado por algo parecido.

Até agora, nada que tentei fez isso parar por muito tempo.

Então é isso.

Ainda estou procurando uma forma de me livrar disso. ©

O homem que pediu para usar meu telefone

 


Isso aconteceu numa terça-feira, no começo de junho.

Eu lembro porque terça era o dia em que eu fechava a loja sozinho.

Trabalhava numa pequena assistência técnica de celulares e computadores numa avenida movimentada durante o dia, mas quase deserta depois das nove da noite. Havia uma farmácia na esquina, um posto de gasolina duas quadras adiante e, do outro lado da rua, uma loja de colchões que fechava às seis.

Depois disso, só ficavam os postes acesos e os ônibus passando de vez em quando.

Naquela noite, saí às 21h17.

Eu sei o horário porque mandei uma mensagem para minha esposa.

“Fechando aqui. Quer que eu leve alguma coisa?”

Ela respondeu quase imediatamente.

“Leite.”

Eu estava guardando o celular quando ouvi:

— Amigo?

Um homem estava parado perto do ponto de ônibus.

Devia ter uns quarenta anos. Talvez menos. Camiseta cinza, calça jeans, tênis escuro. Nada nele chamava atenção.

E acho que essa é uma das coisas que mais me incomodam quando lembro.

Ele parecia completamente normal.

— Desculpa incomodar — disse. — Posso usar seu telefone rapidinho?

Parei perto da porta da loja.

— Pra ligar?

— É. Meu carro deu problema.

Olhei para a rua.

— Onde?

Ele apontou para algum lugar atrás de mim.

— Ali embaixo.

Eu não virei.

Não sei por quê.

Talvez porque houvesse alguma coisa estranha na maneira como ele apontou. Não parecia estar indicando um lugar específico. Foi mais como alguém fazendo um gesto porque sabia que deveria fazer um.

— Posso discar pra você — falei.

Ele sorriu.

— Claro.

Perguntei o número.

Ele disse.

Digitei e coloquei no viva-voz.

Chamou.

Uma vez.

Duas.

Três.

Ninguém atendeu.

— Minha mulher — explicou.

Tentei devolver o telefone para o bolso.

— Valeu — ele disse.

— Tranquilo.

Andei em direção ao meu carro.

Então ouvi meu celular tocar.

Parei.

Número desconhecido.

Atendi.

— Alô?

Silêncio.

Depois, uma voz masculina falou:

— Oi.

Olhei para trás.

O homem continuava perto do ponto.

Estava segurando alguma coisa junto ao ouvido.

— Conseguiu falar com ela? — perguntei.

Ele não respondeu pelo telefone.

Mas, do outro lado da rua, vi a boca dele se mover.

— Obrigado por atender.

Desligou.

Fiquei parado por alguns segundos.

Então entendi.

O número que ele tinha me passado era o número dele.

Ele só queria o meu.

Olhei novamente para o ponto de ônibus.

Ele já estava andando na direção oposta.

Entrei no carro e tranquei as portas.

Minha primeira reação não foi medo.

Foi irritação.

Achei que fosse algum tipo de golpe. Talvez ele fosse mandar mensagens pedindo dinheiro, tentar recuperar alguma conta, sei lá.

Bloqueei o número.

Passei no mercado, comprei o leite e fui para casa.

Minha esposa, Camila, estava assistindo televisão quando cheguei.

Contei o que aconteceu.

Ela fez exatamente a pergunta que eu não tinha feito.

— Por que alguém faria isso só pra conseguir seu número?

— Propaganda. Golpe.

— Podia simplesmente pedir.

— Aí eu não daria.

Ela ficou olhando para mim.

— Exatamente.

Não gostei daquela resposta.

Mesmo assim, esquecemos o assunto.

Ou tentamos.

Às 23h46, meu celular vibrou.

Mensagem de outro número.

Era uma foto.

Demorei alguns segundos para entender o que estava vendo.

Era a fachada da assistência técnica.

Minha loja.

Fotografada do outro lado da avenida.

A imagem parecia ter sido tirada naquela noite, porque a placa estava apagada e a grade estava abaixada.

Embaixo, havia uma mensagem:

“Você esqueceu uma luz acesa.”

Ampliei a foto.

No fundo da loja, realmente havia um pequeno ponto de luz.

A luminária da bancada.

Eu devia ter esquecido.

Camila percebeu minha expressão.

— O que foi?

Mostrei.

Ela imediatamente falou:

— Polícia.

Eu ainda estava tentando racionalizar.

Talvez fosse um conhecido fazendo brincadeira.

Talvez um cliente.

Talvez o homem tivesse me visto saindo da loja e estivesse tentando me assustar.

Então chegou outra mensagem.

“Não precisa voltar. Eu apago.”

Liguei para a polícia.

Expliquei a situação.

Uma viatura passou na frente da loja uns vinte minutos depois. Não encontraram ninguém.

A porta estava trancada.

A grade também.

E a luz continuava acesa.

Bloqueei o segundo número.

No dia seguinte, contei para meu chefe.

Ele achou estranho, mas não havia muito que fazer. Conferimos as câmeras.

O homem aparecia nelas.

Às 20h51, quase meia hora antes de eu fechar, ele já estava do outro lado da rua.

Parado.

Olhando para a loja.

Às 21h09, atravessou.

Às 21h17, falou comigo.

Meu chefe voltou a gravação.

— Ele estava esperando você.

Essa foi a primeira vez que senti medo de verdade.

Porque até então eu tinha imaginado que tivesse sido escolhido por acaso.

Naquela noite, Camila foi me buscar.

Nada aconteceu.

Na quinta, também não.

Na sexta, comecei a achar que o sujeito tinha desistido.

Então, às 18h30, chegou uma mensagem de outro número.

“Hoje você não fecha.”

Não respondi.

Mostrei ao meu chefe.

Ele fechou a loja comigo às nove.

Fomos embora juntos.

Passei o fim de semana sem receber nada.

Na segunda-feira, encontrei um envelope embaixo da porta da loja.

Dentro havia uma fotografia impressa.

Eu levando o lixo para fora de casa.

A foto tinha sido tirada de longe.

Talvez da esquina.

Atrás, escrito de caneta:

“Você olha para a esquerda primeiro.”

Foi aí que percebi que ele sabia onde eu morava.

Não sei explicar direito o que aconteceu comigo depois disso.

Medo prolongado muda sua rotina de maneiras ridículas.

Eu parei de abrir a cortina da sala.

Comecei a verificar o banco traseiro do carro.

Mudava o caminho para o trabalho.

Se alguém caminhava atrás de mim no supermercado, eu abandonava o corredor.

Toda vez que um carro diminuía perto de casa, eu olhava a placa.

Fiz boletim de ocorrência, entreguei as mensagens, as imagens das câmeras, a fotografia.

Mas não sabíamos quem ele era.

E ele nunca ameaçava diretamente.

Esse detalhe parecia importante para ele.

Ele nunca escrevia “vou matar você”.

Nunca dizia que entraria na minha casa.

Ele só demonstrava que podia chegar perto.

Muito perto.

Uma semana depois, encontrei outra fotografia.

Dessa vez, presa no limpador do meu carro.

Era Camila entrando no prédio onde trabalhava.

Atrás:

“Ela olha para a direita.”

Camila começou a chorar quando viu.

Naquela noite, fomos dormir na casa dos pais dela.

Não contamos o motivo inteiro. Dissemos que alguém estava me perseguindo por causa da loja.

Ficamos lá quatro dias.

Nenhuma mensagem.

Nenhuma fotografia.

Nada.

Na sexta-feira, resolvi voltar sozinho para casa para buscar roupas.

Cheguei pouco depois das sete da noite.

Estacionei na garagem e fiquei sentado dentro do carro por alguns segundos.

Eu tinha desenvolvido um ritual.

Olhar retrovisor.

Portão.

Escada.

Janelas.

Só então sair.

Tudo normal.

Subi.

A porta do apartamento estava trancada.

Entrei.

Não havia ninguém.

Peguei uma mala no quarto e comecei a colocar algumas roupas.

Foi quando ouvi um celular vibrando.

Não era o meu.

Fiquei imóvel.

Bzzz.

Silêncio.

Bzzz.

Vinha da sala.

Saí do quarto devagar.

O som parou.

Procurei atrás das almofadas.

Nada.

Debaixo do sofá.

Nada.

Então vibrou novamente.

Na estante.

Atrás dos livros, encontrei um celular pequeno, daqueles baratos.

A tela estava acesa.

Havia uma chamada recebida.

Sem identificação.

Fiquei olhando.

O telefone parou.

Alguns segundos depois, chegou uma mensagem.

“Demorou.”

Meu corpo inteiro gelou.

Outra mensagem apareceu.

“Eu achei que você procuraria primeiro na cozinha.”

Não toquei em mais nada.

Saí do apartamento.

Desci as escadas correndo e liguei para a polícia da garagem.

Foi feita uma busca no apartamento.

Ninguém estava lá.

Não encontraram sinais claros de arrombamento.

O celular foi levado.

E foi nesse ponto que as coisas finalmente começaram a andar.

Não vou entrar em detalhes técnicos porque, sinceramente, não entendo metade do que fizeram. Mas conseguiram relacionar o aparelho a imagens de uma câmera de segurança de uma loja onde ele tinha sido comprado.

Era o mesmo homem.

Depois conseguiram identificá-lo.

O nome dele era Renato.

Eu nunca tinha visto Renato antes daquela noite.

Ele não era cliente.

Não morava perto.

Não conhecia Camila.

Não tínhamos amigos em comum.

Quando finalmente o localizaram, encontraram coisas na casa dele que me fizeram entender que aquilo nunca tinha sido sobre mim.

Havia fotografias de outras pessoas.

Dezenas.

Homens, mulheres, casais.

Fachadas de casas.

Carros.

Pessoas chegando ao trabalho.

Algumas imagens tinham anotações.

“Fecha a janela às 22h.”

“Cachorro late quando chego perto.”

“Demora 14 segundos para atender.”

“Não percebeu o carro.”

A polícia entrou em contato com algumas daquelas pessoas.

Duas lembravam dele.

Uma mulher contou que, meses antes, um desconhecido tinha pedido ajuda para empurrar um carro.

Um rapaz disse que um homem havia pedido informações sobre um endereço.

Coisas normais.

Pequenos contatos.

O suficiente para começar.

Nunca descobriram exatamente quantas pessoas ele tinha perseguido.

Mas descobriram uma coisa pior.

Na casa dele havia um caderno.

Meu nome estava nele.

A primeira anotação era da noite em que nos conhecemos.

“Educado. Cauteloso com o telefone.”

Depois:

“Bloqueia rápido.”

“Mulher percebe risco antes dele.”

“Começou a olhar carros.”

“Cortina fechada.”

“Alterou caminho.”

“Dormiu fora.”

Ele estava registrando minhas reações.

Era isso que ele queria.

Não dinheiro.

Não vingança.

Nem sequer entrar na minha casa para roubar alguma coisa.

Ele queria observar quanto tempo levaria para modificar completamente a vida de uma pessoa usando quase nada.

Uma ligação.

Uma fotografia.

Uma mensagem.

Um objeto fora do lugar.

O celular escondido no apartamento aparentemente seria uma espécie de etapa final.

Perguntei ao policial que acompanhava o caso o que Renato pretendia fazer depois.

Ele disse que não sabia.

Talvez nada.

Talvez simplesmente parar.

Estranhamente, isso não me tranquilizou.

Meses depois, enquanto algumas coisas ainda estavam sendo investigadas, um dos policiais me ligou.

Haviam encontrado mais anotações no computador dele.

Entre elas, uma espécie de tabela.

Os nomes das pessoas eram acompanhados por datas, horários e observações.

Meu nome estava perto do final.

Perguntei se havia alguma coisa diferente sobre mim.

O policial hesitou.

Depois disse que provavelmente não significava nada.

Insisti.

Ele acabou me contando.

Ao lado do meu nome havia uma frase:

“Quase pronto.”

Perguntei:

— Pronto pra quê?

Ele disse que não sabia.

Nunca conseguiram arrancar uma explicação clara de Renato.

Durante muito tempo, achei que aquela frase fosse a pior parte de tudo.

Não é.

A pior parte eu descobri quase um ano depois.

Camila e eu já tínhamos mudado de apartamento. Eu também tinha saído daquele emprego. Aos poucos, nossa vida estava voltando ao normal.

Uma noite, estávamos conversando sobre o caso.

Ela comentou:

— Pelo menos você não abriu a porta naquela primeira vez.

Achei que tivesse entendido errado.

— Que porta?

Camila ficou em silêncio.

— Da loja.

— Do que você está falando?

Ela franziu a testa.

— Você nunca me contou isso?

— Contou o quê?

Ela ficou pálida.

Então me explicou.

Na noite anterior ao homem pedir meu telefone, por volta das 22h30, alguém havia ligado para o celular dela.

Um homem.

Disse que era um cliente meu.

Falou que eu tinha esquecido minha carteira na loja e perguntou se eu ainda estava trabalhando.

Camila respondeu que provavelmente sim, porque nas terças eu fechava sozinho.

O homem agradeceu.

Antes de desligar, perguntou:

— A porta dos fundos fica aberta quando ele está fechando?

Ela achou a pergunta estranha e desligou sem responder.

Não tinha me contado porque esqueceu completamente até aquele momento.

Fiquei sentado olhando para ela.

Depois peguei o celular e procurei as fotos antigas do caso.

Encontrei a imagem que Renato havia tirado da fachada da loja naquela primeira noite.

Ampliei.

A loja estava escura, exceto pela luminária que eu tinha esquecido acesa.

Mas havia outra coisa.

No reflexo da vitrine, quase invisível, aparecia parte do prédio ao lado.

E o corredor estreito que levava aos fundos da minha loja.

Havia alguém ali.

Não dava para ver o rosto.

Só uma silhueta parada perto da porta dos fundos.

Verifiquei o horário da fotografia.

21h32.

Quinze minutos depois de eu ter ido embora.

Fiquei olhando para aquela imagem durante muito tempo.

Porque finalmente entendi uma coisa que nenhuma das anotações explicava.

Naquela terça-feira, Renato não estava tentando descobrir onde eu morava.

Ainda não.

Ele estava testando alguma coisa muito mais simples.

Queria saber se conseguiria fazer com que eu voltasse sozinho para uma loja vazia depois do expediente.

E por acaso eu não voltei.

Porque Camila tinha pedido leite. ©