Isso aconteceu numa terça-feira, no começo de junho.
Eu lembro porque terça era o dia em que eu fechava a loja sozinho.
Trabalhava numa pequena assistência técnica de celulares e computadores numa avenida movimentada durante o dia, mas quase deserta depois das nove da noite. Havia uma farmácia na esquina, um posto de gasolina duas quadras adiante e, do outro lado da rua, uma loja de colchões que fechava às seis.
Depois disso, só ficavam os postes acesos e os ônibus passando de vez em quando.
Naquela noite, saí às 21h17.
Eu sei o horário porque mandei uma mensagem para minha esposa.
“Fechando aqui. Quer que eu leve alguma coisa?”
Ela respondeu quase imediatamente.
“Leite.”
Eu estava guardando o celular quando ouvi:
— Amigo?
Um homem estava parado perto do ponto de ônibus.
Devia ter uns quarenta anos. Talvez menos. Camiseta cinza, calça jeans, tênis escuro. Nada nele chamava atenção.
E acho que essa é uma das coisas que mais me incomodam quando lembro.
Ele parecia completamente normal.
— Desculpa incomodar — disse. — Posso usar seu telefone rapidinho?
Parei perto da porta da loja.
— Pra ligar?
— É. Meu carro deu problema.
Olhei para a rua.
— Onde?
Ele apontou para algum lugar atrás de mim.
— Ali embaixo.
Eu não virei.
Não sei por quê.
Talvez porque houvesse alguma coisa estranha na maneira como ele apontou. Não parecia estar indicando um lugar específico. Foi mais como alguém fazendo um gesto porque sabia que deveria fazer um.
— Posso discar pra você — falei.
Ele sorriu.
— Claro.
Perguntei o número.
Ele disse.
Digitei e coloquei no viva-voz.
Chamou.
Uma vez.
Duas.
Três.
Ninguém atendeu.
— Minha mulher — explicou.
Tentei devolver o telefone para o bolso.
— Valeu — ele disse.
— Tranquilo.
Andei em direção ao meu carro.
Então ouvi meu celular tocar.
Parei.
Número desconhecido.
Atendi.
— Alô?
Silêncio.
Depois, uma voz masculina falou:
— Oi.
Olhei para trás.
O homem continuava perto do ponto.
Estava segurando alguma coisa junto ao ouvido.
— Conseguiu falar com ela? — perguntei.
Ele não respondeu pelo telefone.
Mas, do outro lado da rua, vi a boca dele se mover.
— Obrigado por atender.
Desligou.
Fiquei parado por alguns segundos.
Então entendi.
O número que ele tinha me passado era o número dele.
Ele só queria o meu.
Olhei novamente para o ponto de ônibus.
Ele já estava andando na direção oposta.
Entrei no carro e tranquei as portas.
Minha primeira reação não foi medo.
Foi irritação.
Achei que fosse algum tipo de golpe. Talvez ele fosse mandar mensagens pedindo dinheiro, tentar recuperar alguma conta, sei lá.
Bloqueei o número.
Passei no mercado, comprei o leite e fui para casa.
Minha esposa, Camila, estava assistindo televisão quando cheguei.
Contei o que aconteceu.
Ela fez exatamente a pergunta que eu não tinha feito.
— Por que alguém faria isso só pra conseguir seu número?
— Propaganda. Golpe.
— Podia simplesmente pedir.
— Aí eu não daria.
Ela ficou olhando para mim.
— Exatamente.
Não gostei daquela resposta.
Mesmo assim, esquecemos o assunto.
Ou tentamos.
Às 23h46, meu celular vibrou.
Mensagem de outro número.
Era uma foto.
Demorei alguns segundos para entender o que estava vendo.
Era a fachada da assistência técnica.
Minha loja.
Fotografada do outro lado da avenida.
A imagem parecia ter sido tirada naquela noite, porque a placa estava apagada e a grade estava abaixada.
Embaixo, havia uma mensagem:
“Você esqueceu uma luz acesa.”
Ampliei a foto.
No fundo da loja, realmente havia um pequeno ponto de luz.
A luminária da bancada.
Eu devia ter esquecido.
Camila percebeu minha expressão.
— O que foi?
Mostrei.
Ela imediatamente falou:
— Polícia.
Eu ainda estava tentando racionalizar.
Talvez fosse um conhecido fazendo brincadeira.
Talvez um cliente.
Talvez o homem tivesse me visto saindo da loja e estivesse tentando me assustar.
Então chegou outra mensagem.
“Não precisa voltar. Eu apago.”
Liguei para a polícia.
Expliquei a situação.
Uma viatura passou na frente da loja uns vinte minutos depois. Não encontraram ninguém.
A porta estava trancada.
A grade também.
E a luz continuava acesa.
Bloqueei o segundo número.
No dia seguinte, contei para meu chefe.
Ele achou estranho, mas não havia muito que fazer. Conferimos as câmeras.
O homem aparecia nelas.
Às 20h51, quase meia hora antes de eu fechar, ele já estava do outro lado da rua.
Parado.
Olhando para a loja.
Às 21h09, atravessou.
Às 21h17, falou comigo.
Meu chefe voltou a gravação.
— Ele estava esperando você.
Essa foi a primeira vez que senti medo de verdade.
Porque até então eu tinha imaginado que tivesse sido escolhido por acaso.
Naquela noite, Camila foi me buscar.
Nada aconteceu.
Na quinta, também não.
Na sexta, comecei a achar que o sujeito tinha desistido.
Então, às 18h30, chegou uma mensagem de outro número.
“Hoje você não fecha.”
Não respondi.
Mostrei ao meu chefe.
Ele fechou a loja comigo às nove.
Fomos embora juntos.
Passei o fim de semana sem receber nada.
Na segunda-feira, encontrei um envelope embaixo da porta da loja.
Dentro havia uma fotografia impressa.
Eu levando o lixo para fora de casa.
A foto tinha sido tirada de longe.
Talvez da esquina.
Atrás, escrito de caneta:
“Você olha para a esquerda primeiro.”
Foi aí que percebi que ele sabia onde eu morava.
Não sei explicar direito o que aconteceu comigo depois disso.
Medo prolongado muda sua rotina de maneiras ridículas.
Eu parei de abrir a cortina da sala.
Comecei a verificar o banco traseiro do carro.
Mudava o caminho para o trabalho.
Se alguém caminhava atrás de mim no supermercado, eu abandonava o corredor.
Toda vez que um carro diminuía perto de casa, eu olhava a placa.
Fiz boletim de ocorrência, entreguei as mensagens, as imagens das câmeras, a fotografia.
Mas não sabíamos quem ele era.
E ele nunca ameaçava diretamente.
Esse detalhe parecia importante para ele.
Ele nunca escrevia “vou matar você”.
Nunca dizia que entraria na minha casa.
Ele só demonstrava que podia chegar perto.
Muito perto.
Uma semana depois, encontrei outra fotografia.
Dessa vez, presa no limpador do meu carro.
Era Camila entrando no prédio onde trabalhava.
Atrás:
“Ela olha para a direita.”
Camila começou a chorar quando viu.
Naquela noite, fomos dormir na casa dos pais dela.
Não contamos o motivo inteiro. Dissemos que alguém estava me perseguindo por causa da loja.
Ficamos lá quatro dias.
Nenhuma mensagem.
Nenhuma fotografia.
Nada.
Na sexta-feira, resolvi voltar sozinho para casa para buscar roupas.
Cheguei pouco depois das sete da noite.
Estacionei na garagem e fiquei sentado dentro do carro por alguns segundos.
Eu tinha desenvolvido um ritual.
Olhar retrovisor.
Portão.
Escada.
Janelas.
Só então sair.
Tudo normal.
Subi.
A porta do apartamento estava trancada.
Entrei.
Não havia ninguém.
Peguei uma mala no quarto e comecei a colocar algumas roupas.
Foi quando ouvi um celular vibrando.
Não era o meu.
Fiquei imóvel.
Bzzz.
Silêncio.
Bzzz.
Vinha da sala.
Saí do quarto devagar.
O som parou.
Procurei atrás das almofadas.
Nada.
Debaixo do sofá.
Nada.
Então vibrou novamente.
Na estante.
Atrás dos livros, encontrei um celular pequeno, daqueles baratos.
A tela estava acesa.
Havia uma chamada recebida.
Sem identificação.
Fiquei olhando.
O telefone parou.
Alguns segundos depois, chegou uma mensagem.
“Demorou.”
Meu corpo inteiro gelou.
Outra mensagem apareceu.
“Eu achei que você procuraria primeiro na cozinha.”
Não toquei em mais nada.
Saí do apartamento.
Desci as escadas correndo e liguei para a polícia da garagem.
Foi feita uma busca no apartamento.
Ninguém estava lá.
Não encontraram sinais claros de arrombamento.
O celular foi levado.
E foi nesse ponto que as coisas finalmente começaram a andar.
Não vou entrar em detalhes técnicos porque, sinceramente, não entendo metade do que fizeram. Mas conseguiram relacionar o aparelho a imagens de uma câmera de segurança de uma loja onde ele tinha sido comprado.
Era o mesmo homem.
Depois conseguiram identificá-lo.
O nome dele era Renato.
Eu nunca tinha visto Renato antes daquela noite.
Ele não era cliente.
Não morava perto.
Não conhecia Camila.
Não tínhamos amigos em comum.
Quando finalmente o localizaram, encontraram coisas na casa dele que me fizeram entender que aquilo nunca tinha sido sobre mim.
Havia fotografias de outras pessoas.
Dezenas.
Homens, mulheres, casais.
Fachadas de casas.
Carros.
Pessoas chegando ao trabalho.
Algumas imagens tinham anotações.
“Fecha a janela às 22h.”
“Cachorro late quando chego perto.”
“Demora 14 segundos para atender.”
“Não percebeu o carro.”
A polícia entrou em contato com algumas daquelas pessoas.
Duas lembravam dele.
Uma mulher contou que, meses antes, um desconhecido tinha pedido ajuda para empurrar um carro.
Um rapaz disse que um homem havia pedido informações sobre um endereço.
Coisas normais.
Pequenos contatos.
O suficiente para começar.
Nunca descobriram exatamente quantas pessoas ele tinha perseguido.
Mas descobriram uma coisa pior.
Na casa dele havia um caderno.
Meu nome estava nele.
A primeira anotação era da noite em que nos conhecemos.
“Educado. Cauteloso com o telefone.”
Depois:
“Bloqueia rápido.”
“Mulher percebe risco antes dele.”
“Começou a olhar carros.”
“Cortina fechada.”
“Alterou caminho.”
“Dormiu fora.”
Ele estava registrando minhas reações.
Era isso que ele queria.
Não dinheiro.
Não vingança.
Nem sequer entrar na minha casa para roubar alguma coisa.
Ele queria observar quanto tempo levaria para modificar completamente a vida de uma pessoa usando quase nada.
Uma ligação.
Uma fotografia.
Uma mensagem.
Um objeto fora do lugar.
O celular escondido no apartamento aparentemente seria uma espécie de etapa final.
Perguntei ao policial que acompanhava o caso o que Renato pretendia fazer depois.
Ele disse que não sabia.
Talvez nada.
Talvez simplesmente parar.
Estranhamente, isso não me tranquilizou.
Meses depois, enquanto algumas coisas ainda estavam sendo investigadas, um dos policiais me ligou.
Haviam encontrado mais anotações no computador dele.
Entre elas, uma espécie de tabela.
Os nomes das pessoas eram acompanhados por datas, horários e observações.
Meu nome estava perto do final.
Perguntei se havia alguma coisa diferente sobre mim.
O policial hesitou.
Depois disse que provavelmente não significava nada.
Insisti.
Ele acabou me contando.
Ao lado do meu nome havia uma frase:
“Quase pronto.”
Perguntei:
— Pronto pra quê?
Ele disse que não sabia.
Nunca conseguiram arrancar uma explicação clara de Renato.
Durante muito tempo, achei que aquela frase fosse a pior parte de tudo.
Não é.
A pior parte eu descobri quase um ano depois.
Camila e eu já tínhamos mudado de apartamento. Eu também tinha saído daquele emprego. Aos poucos, nossa vida estava voltando ao normal.
Uma noite, estávamos conversando sobre o caso.
Ela comentou:
— Pelo menos você não abriu a porta naquela primeira vez.
Achei que tivesse entendido errado.
— Que porta?
Camila ficou em silêncio.
— Da loja.
— Do que você está falando?
Ela franziu a testa.
— Você nunca me contou isso?
— Contou o quê?
Ela ficou pálida.
Então me explicou.
Na noite anterior ao homem pedir meu telefone, por volta das 22h30, alguém havia ligado para o celular dela.
Um homem.
Disse que era um cliente meu.
Falou que eu tinha esquecido minha carteira na loja e perguntou se eu ainda estava trabalhando.
Camila respondeu que provavelmente sim, porque nas terças eu fechava sozinho.
O homem agradeceu.
Antes de desligar, perguntou:
— A porta dos fundos fica aberta quando ele está fechando?
Ela achou a pergunta estranha e desligou sem responder.
Não tinha me contado porque esqueceu completamente até aquele momento.
Fiquei sentado olhando para ela.
Depois peguei o celular e procurei as fotos antigas do caso.
Encontrei a imagem que Renato havia tirado da fachada da loja naquela primeira noite.
Ampliei.
A loja estava escura, exceto pela luminária que eu tinha esquecido acesa.
Mas havia outra coisa.
No reflexo da vitrine, quase invisível, aparecia parte do prédio ao lado.
E o corredor estreito que levava aos fundos da minha loja.
Havia alguém ali.
Não dava para ver o rosto.
Só uma silhueta parada perto da porta dos fundos.
Verifiquei o horário da fotografia.
21h32.
Quinze minutos depois de eu ter ido embora.
Fiquei olhando para aquela imagem durante muito tempo.
Porque finalmente entendi uma coisa que nenhuma das anotações explicava.
Naquela terça-feira, Renato não estava tentando descobrir onde eu morava.
Ainda não.
Ele estava testando alguma coisa muito mais simples.
Queria saber se conseguiria fazer com que eu voltasse sozinho para uma loja vazia depois do expediente.
E por acaso eu não voltei.
Porque Camila tinha pedido leite. ©

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