sábado, 8 de agosto de 2026

Eu acho que alguma coisa me viu pelo espelho do banheiro

 

Eu sei exatamente quando isso começou.

O problema é que, na época, não aconteceu nada que parecesse importante.

Foi numa sexta-feira à noite, há pouco mais de dois meses. Eu tinha chegado cansada do trabalho, pedi comida, tomei uma taça de vinho e fiquei enrolando para tomar banho enquanto assistia vídeos no celular.

Moro sozinha.

Meu apartamento não é grande. Tem um quarto, sala, cozinha e um banheiro minúsculo no corredor. O banheiro tem um espelho enorme em cima da pia, daqueles que ocupam quase toda a parede. Ele já estava aqui quando me mudei.

Naquela noite, levei o celular para o banheiro e coloquei uma playlist enquanto tomava banho.

Depois fiquei diante do espelho passando creme no cabelo.

Começou a tocar uma música que eu gostava muito.

Eu estava de bom humor, então comecei a cantar.

Não foi nenhum ritual.

Não acendi vela.

Não falei palavras estranhas.

Não estava tentando invocar coisa nenhuma.

Eu simplesmente cantei olhando para o meu reflexo.

Em algum momento comecei a dançar também. Uma coisa idiota, sozinha em casa. Eu estava enrolada na toalha, usando a escova de cabelo como microfone e rindo de mim mesma.

Lembro que cheguei bem perto do espelho durante o refrão.

E foi aí que tive aquela sensação.

Vocês sabem quando alguém entra num cômodo atrás de você e, mesmo sem ouvir nada, você percebe?

Foi exatamente isso.

Parei de cantar.

Olhei pelo espelho para a porta do banheiro.

Não havia ninguém.

Mesmo assim, tive certeza de que alguma coisa estava atrás de mim.

Virei.

Nada.

Meu apartamento estava silencioso.

Até brinquei comigo mesma.

"Parabéns. Vinte e oito anos e agora você tem medo do próprio banheiro."

Terminei o que estava fazendo e fui dormir.

Às 3h17, acordei com alguém sussurrando meu nome.

Não parecia vir do corredor.

Parecia vir do lado da cama.

Abri os olhos imediatamente.

O quarto estava escuro, exceto pela luz do poste atravessando a cortina.

Fiquei imóvel.

Meu coração estava acelerado, mas tentei racionalizar. Às vezes a gente acorda no meio de um sonho e carrega algum som para a realidade.

Fechei os olhos.

Então ouvi de novo.

Meu nome.

Dessa vez mais baixo.

Quase carinhoso.

Sentei na cama e acendi o abajur.

Nada.

Olhei debaixo da cama, conferi o apartamento inteiro e verifiquei a fechadura.

Tudo normal.

Só achei uma coisa estranha.

A porta do banheiro estava aberta.

Eu sempre deixo aquela porta fechada porque a luz do prédio entra pela janelinha e ilumina o corredor.

Fechei.

Voltei para a cama.

Na manhã seguinte, já parecia ridículo.

Até a segunda noite.

Acordei às 3h17 novamente.

Dessa vez não ouvi meu nome.

Ouvi uma respiração.

Lenta.

Profunda.

Vindo do corredor.

Não levantei.

Fiquei uns dez minutos olhando para a porta do quarto.

A respiração parou.

Depois ouvi um pequeno estalo.

Era a porta do banheiro abrindo.

Na manhã seguinte ela estava aberta outra vez.

Comecei a pensar que havia algum problema na fechadura.

Coloquei uma toalha dobrada embaixo da porta para impedir que ela se movesse.

Funcionou.

Por uma noite.

Na outra, acordei e encontrei a toalha no meio do corredor.

A porta estava aberta.

Foi aí que comecei a ficar assustada de verdade.

Mas as coisas pioraram durante o dia também.

Passei a perceber movimentos nos reflexos.

Nunca diretamente.

Era sempre naquele intervalo de meio segundo em que eu passava pelo banheiro.

Uma sombra alta.

Um movimento atrás de mim.

Uma impressão de que havia alguém parado perto do box.

Quando eu voltava para conferir, não tinha nada.

Também comecei a encontrar marcas no espelho.

Pareciam manchas de dedos.

Eu limpava.

Elas voltavam.

Uma noite, contei.

Cinco marcas.

Como se alguém tivesse apoiado uma mão do outro lado.

Foi nessa época que os sussurros começaram a acontecer enquanto eu estava acordada.

No início eu não entendia palavras.

Parecia alguém conversando muito baixo no apartamento vizinho.

Depois começaram as frases.

"Olha para mim."

Foi a primeira que entendi claramente.

Eu estava escovando os dentes.

Congelei.

O sussurro veio atrás de mim.

"Olha."

Eu já estava olhando para o espelho.

Talvez por isso tenha demorado alguns segundos para perceber uma coisa.

Meu reflexo estava normal.

Mas atrás dele havia algo escuro.

Muito alto.

Perto da porta.

Virei tão rápido que bati o quadril na pia.

Não havia ninguém.

Saí do banheiro, peguei minha bolsa e dormi na casa da minha irmã.

Não contei o motivo verdadeiro.

Disse que tinha aparecido uma barata enorme no apartamento.

No dia seguinte, voltei acompanhada dela.

Tudo parecia normal.

Minha irmã riu da quantidade de luzes que eu tinha deixado acesas.

Então ela entrou no banheiro.

Ficou parada.

Perguntei o que foi.

Ela respondeu:

"Seu espelho sempre foi assim?"

Meu estômago gelou.

Perguntei o que ela queria dizer.

Ela apontou para uma parte próxima da borda.

Havia uma mancha escura no vidro.

Parecia estar dentro do espelho.

Não sobre ele.

Minha irmã tentou limpar.

Não saiu.

Três dias depois, a mancha havia desaparecido.

Foi quando comecei a pesquisar.

Primeiro procurei coisas óbvias: alucinação ao acordar, paralisia do sono, problemas com reflexos, privação de sono.

Depois comecei a pesquisar relatos sobrenaturais.

E acabei entrando num buraco que eu gostaria de nunca ter encontrado.

Li fóruns, blogs, discussões antigas e relatos sobre djinns.

Em vários desses textos aparecia um termo: Jinn al-Ashiq.

Algumas pessoas traduziam como "djinn amante" ou "djinn apaixonado".

Os relatos descreviam uma entidade que desenvolveria uma espécie de obsessão por uma pessoa.

Não estou dizendo que essas coisas sejam verdade.

Estou dizendo apenas o que encontrei.

E uma postagem específica quase me fez vomitar.

Uma mulher perguntava se era perigoso cantar diante de espelhos.

Nos comentários, alguém dizia que espelhos poderiam funcionar como passagens ou pontos de contato e que cantar ou dançar diante deles, principalmente em lugares privados como banheiros, poderia atrair uma presença.

Li aquilo umas cinco vezes.

Depois lembrei daquela sexta-feira.

A música.

Eu cantando.

Dançando.

Olhando diretamente para mim mesma.

E aquela sensação repentina de alguém entrando no banheiro.

Fechei o notebook.

Naquela noite cobri o espelho com um lençol.

Foi a pior decisão que tomei.

Às 2h40 acordei com barulho no corredor.

Não era respiração.

Eram passos.

Dois passos.

Silêncio.

Dois passos.

Silêncio.

Como se alguém estivesse andando de um lado para o outro num espaço pequeno.

Peguei o celular.

Liguei para minha irmã.

Enquanto chamava, os passos pararam.

Então alguma coisa arranhou a porta do meu quarto.

Uma vez.

Devagar.

Do alto até embaixo.

Minha irmã atendeu.

Eu nem consegui explicar.

Só pedi para ela continuar falando comigo.

Enquanto ela falava, ouvi um som vindo do banheiro.

O tecido deslizando.

Na manhã seguinte, encontrei o lençol dobrado no chão.

Não caído.

Dobrado.

O espelho estava descoberto.

E havia uma frase desenhada no vapor do vidro.

NÃO ME ESCONDA.

Eu não tinha tomado banho.

O espelho estava seco.

Saí do apartamento naquele mesmo dia.

Fiquei duas semanas na casa da minha irmã.

Achei que tinha resolvido.

Não tinha.

Na quarta noite, acordei às 3h17.

Minha irmã estava dormindo no quarto ao lado.

Ouvi meu nome.

Bem perto do ouvido.

Depois uma voz masculina sussurrou:

"Você foi embora."

Não parecia zangada.

Parecia magoada.

Isso foi pior.

No dia seguinte, minha irmã perguntou por que eu estava andando pela casa de madrugada.

Eu disse que não estava.

Ela insistiu.

Disse que tinha me visto parada no corredor.

Perguntei que horas.

Ela não sabia exatamente.

Mas devia ser pouco depois das três.

Segundo ela, eu estava parada diante do espelho do corredor.

De costas.

Ela chamou meu nome.

A pessoa não respondeu.

Minha irmã voltou para o quarto porque achou que eu estava sonâmbula.

Só que eu estava trancada no quarto de hóspedes.

Eu comecei a chorar quando ela contou.

Contei tudo.

Ela não riu.

Nós cobrimos todos os espelhos da casa.

Durante três dias, nada aconteceu.

Na quarta noite, ouvi batidas vindas de dentro do guarda-roupa.

Três batidas.

Pausa.

Três batidas.

Depois o meu celular vibrou.

Era uma mensagem enviada pelo meu próprio número.

Só havia duas palavras:

ME MOSTRA.

Minha irmã viu.

Então pelo menos essa parte eu sei que não imaginei.

Troquei de celular.

Troquei o chip.

Voltei para meu apartamento porque não queria colocar minha irmã no meio disso.

Retirei o espelho do banheiro.

Paguei para um homem tirar aquela coisa inteira da parede.

Enquanto carregava o espelho para fora, ele perguntou se eu queria guardar.

Eu disse que podia jogar fora.

Ele ficou olhando para o vidro por alguns segundos.

Depois perguntou:

"Tem alguém aí dentro?"

Achei que estivesse brincando.

Perguntei o que ele queria dizer.

Ele apontou para o reflexo do corredor.

"Parecia que tinha um homem no seu quarto."

Corri até lá.

Vazio.

Quando voltei, o homem já estava levando o espelho embora.

Não contei nada.

Eu queria aquela coisa fora da minha casa.

Só que aparentemente nunca foi o espelho.

Ou talvez tenha sido no começo.

Agora qualquer superfície serve.

Janela à noite.

Tela desligada da televisão.

Porta do micro-ondas.

Tela preta do celular.

Às vezes vejo uma figura atrás de mim.

Alta demais.

Magra demais.

Nunca consigo enxergar o rosto.

Mas ela está chegando mais perto.

Semana passada consegui vê-la quase inteira no reflexo da televisão.

Estava atrás do sofá.

Eu estava sentada.

Ela parecia inclinada sobre mim.

E havia alguma coisa errada na posição da cabeça.

Como se estivesse tentando aproximar o rosto do meu cabelo.

Não virei.

Fechei os olhos.

Ouvi uma inspiração longa atrás de mim.

Como alguém sentindo um perfume.

Depois o sussurro:

"Minha."

Eu corri.

Tenho dormido com as luzes acesas desde então.

Mas a parte que realmente me assustou aconteceu ontem.

Eu estava conversando com minha irmã por chamada de vídeo.

Ela ficou em silêncio de repente.

Perguntei o que tinha acontecido.

Ela perguntou quem estava comigo.

Eu disse que ninguém.

Ela mandou eu sair do apartamento.

Perguntei por quê.

Minha irmã começou a chorar.

Disse que, por alguns segundos, apareceu um homem atrás de mim na câmera.

Não dava para ver o rosto.

Só os olhos.

Segundo ela, ele não estava olhando para a câmera.

Estava olhando para mim.

Saí de casa.

Estou num hotel agora.

Não há espelhos descobertos no quarto. Cobri o do banheiro com uma toalha assim que cheguei.

São 4h06 enquanto escrevo isso.

Há cerca de vinte minutos, ouvi alguém andando no corredor.

Os passos pararam diante da minha porta.

Não houve batida.

Olhei pelo olho mágico.

Não tinha ninguém.

Voltei para a cama.

Cinco minutos depois ouvi um sussurro vindo do banheiro.

Não consegui entender na primeira vez.

Na segunda, entendi.

"Por que você continua fugindo?"

Não fui até lá.

Não vou.

Estou sentada na cama com todas as luzes acesas e uma cadeira encostada na porta.

A toalha continua cobrindo o espelho.

Mas, enquanto escrevia os últimos parágrafos, percebi uma coisa.

Ela está se mexendo.

Não como se estivesse caindo.

Como se alguma coisa atrás dela estivesse passando os dedos pelo tecido.

Devagar.

De dentro para fora.

Continuo pesquisando tudo o que encontro sobre Jinn al-Ashiq, espelhos, formas de quebrar esse tipo de ligação e relatos de pessoas que dizem ter passado por algo parecido.

Até agora, nada que tentei fez isso parar por muito tempo.

Então é isso.

Ainda estou procurando uma forma de me livrar disso. ©

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